Bete Duarte: a mineira que tanto contribuiu para a gastronomia gaúcha!

por Gabriela Rosseti

(conteúdo publicado na Revista Terroir Boccati Edição 08 – Verão)

Foto: Everson Almeida

Bete Duarte

“Na gastronomia, as pessoas são felizes e generosas. Quem não é feliz e generoso não fica na cozinha”.

Naturalidade: Belo Horizonte – MG

Formação: Jornalista especializada em Gastronomia, mestre em Comunicação e doutora em Letras.

Atuação profissional: Fundadora e jornalista no site Saborosa Viagem

Já fazia algum tempo que ouvia falar da boa hospitalidade dos mineiros. Chegando na casa da nossa personalidade de capa, a jornalista Bete Duarte, tirei a prova. Mineira, residente no Rio Grande do Sul, Bete aguardava nossa equipe com um delicioso café, um bolo de iogurte, e claro que não podia faltar: pão de queijo. Confesso que foi o melhor que já comi, e comi hein!!! Não foram um, nem dois, foram vários. E, entre um e outro, Bete contou um pouco da sua história.

Durante o período de faculdade, Bete já atuava na área de jornalismo. Formada no ano de 1977, tem em sua bagagem o trabalho no extinto jornal Diário de Notícias, foi correspondente na revista Manchete, de Porto Alegre, e após, iniciou no jornal do grupo RBS, Zero Hora, no qual permaneceu por 36 anos. Atuou em diversas editorias, além de ter trabalhado na implantação de outros jornais adquiridos pela RBS.

Bete, em determinado momento, assumiu a editoria de gastronomia do jornal e atuou no Caderno Gastrô desde seu início, quando ainda eram páginas da Revista ZH. No Gastrô, Bete permaneceu até sua saída do jornal, ano em que o Caderno completou 21 anos. No início, confessa que teve um pouco de medo em assumir a editoria, mas foi lá que resolveu ficar. O assunto “gastronomia” era paixão desde sua adolescência.

Bete e suas primas passavam as férias com a avó. “Ela tinha um fogão à lenha, levantava às cinco horas da manhã todos os dias para preparar o café”, relembra a jornalista que também acordava cedo para aprender com ela, uma das pessoas que lhe despertou o amor pela cozinha.

Bete até brinca que se existisse o curso de gastronomia na época em que entrou na faculdade, provavelmente teria sido sua escolha. Mas, mesmo por diversão, fez alguns cursos como o de confeitaria, panificação, análise sensorial e vinhos.

Além disso, Bete promoveu mostras de gastronomia, juntamente com o Caderno, levando a Porto Alegre chefs com estrelas Michelin, franceses e italianos. A jornalista também foi convidada para feiras em diversos países, e representou, juntamente com alguns chefs, o Brasil na Taste of World, na Dinamarca.

A evolução enogastronômica

Acompanhar a evolução da gastronomia marcou a trajetória de Bete. Segundo ela, antigamente os gaúchos procuravam na comida mais quantidade do que qualidade e que, a partir das mostras de gastronomia, e quando começaram a viajar e ver outras formas de comer – que não era só se alimentar, mas sim degustar a comida e a bebida – a gastronomia começou a mudar no Rio Grande do Sul.

“A cozinha gaúcha ainda está procurando sua identidade, mas a comida da campanha é a real comida do gaúcho, não somente o churrasco. E agora, se encontram variadas opções de comidas típicas, que antes eram muito restritas”

Bete também destaca a importância da ascensão da Avaliação Nacional de Vinhos, evento que ocorre na cidade de Bento Gonçalves (RS) e que junta as amostras mais representativas da safra do ano, pré-selecionadas por enólogos, além de ressaltar o progresso do produto do vinho brasileiro.

A jornalista continua comparecendo em todas as avaliações e que, para ir, desmarca qualquer compromisso. Ela também se sente muito orgulhosa por ter sido a primeira mulher a ganhar o troféu Vitis, prêmio criado pela Associação Brasileira de Enologia para homenagear os que dedicam seu tempo, conhecimento e talento para a promoção e valorização do vinho brasileiro.

A nova geração

Sobre a nova geração que está descobrindo na gastronomia tanto um hobby, quanto uma profissão, Bete acredita que o tema se popularizou em decorrência à propaganda feita. Antigamente quando se ia em um restaurante, o chef não ia para o salão, não se sabia quem ele era. Depois, começou esse movimento do chef se mostrar e ele virou um personagem. Mas, Bete acredita que é como o Neymar, o Pelé e alguns outros ídolos no futebol. Existe um pequeno grupo que ganha bem com essa profissão, mas a realidade não é bem assim.

O que a preocupa é o glamour que depositaram na gastronomia. Por isso muita gente acaba fazendo o curso e depois se frustra, e não atua na profissão. Mas também tem o lado das pessoas que vão aprender por prazer, para cozinhar para os amigos, para a família. “Então acho que a gastronomia ganhou muito, tanto pelo lado positivo, quanto pelo lado negativo. O glamour demais às vezes dá uma ideia errônea do que é a gastronomia e faz com que alguns desistam, mas tem também o outro lado, a gastronomia também recebe muita gente que se frustrou em outra profissão”, diz.

Para Bete, o profissional tem que ter paixão pela cozinha. Uma mesma receita resulta em pratos diferentes, pois tem alma, tem tempero. E tempero não se ensina. Os mestres de gastronomia já diziam que não adianta fazer um curso de gastronomia se não entender de tempero, pois é paladar, é sensibilidade.

“Gastronomia é paixão, é doação. O que mais me agrada no mundo da gastronomia, é que geralmente são pessoas felizes e generosas. Quem não é generoso e feliz não fica na cozinha”.

Gastronomia e Literatura

Bete ama estudar, e é de quase não acreditar, mas ela tem uma biblioteca em casa, com 1.500 livros de gastronomia, todos catalogados. No espaço, também acomoda revistas, o caderno de gastronomia da ZH encadernado, páginas de jornais que falam de cozinha, materiais de aulas e coleção de cardápios de restaurantes. Sempre que escreve uma matéria, seja para seu site ou para algum veículo de comunicação, recorre ao acervo para pesquisar.

Foto: Everson Almeida

Atualmente, Bete está com o projeto Da Estante À Mesa, que une suas três paixões: o jornalismo, a gastronomia e a literatura. Nesse projeto, ela se inspira em obras literárias para a criação de cardápios para jantares. Parece simples, mas é bastante trabalhoso e exige muito conhecimento. A jornalista lê novamente toda a obra do autor escolhido, analisa e realiza pesquisas. Um chef é convidado para cozinhar em um jantar para apresentação do material. O cardápio pode levar influência da gastronomia do livro, do seu contexto e até de seus personagens.

Bete já promoveu encontros homenageando diversos autores: Machado de Assis (com o chef Marcelo Schambeck), Guimarães Rosa (com os chefs Leo Magni e Lili Andriola), Simões Lopes Neto (com o chef Carlos Kristensen), Jorge Amado (com o chef Floriano Spiess), Monteiro Lobato (com a chef Elisa Prenna), Cervantes (com o chef Luciano Lunkes), os Veríssimos (com o chef Marcos Livi) e Isabel Allende (com o chef Marcelo Schambeck). É um projeto incrível, e se você ficou curioso, no site Saborosa Viagem, tem os detalhes de cada um deles.

Quando questionada por qual razão ela não escreve livros sobre os seus projetos, Bete responde que hoje ninguém mais quer ler, que poucas pessoas tem a paixão pelo livro, mas que ela entende pois a “concorrência”, como celular e televisão, é muito grande. Por isso, optou por mantê-los somente em seu site. Mas reafirma que as pessoas precisam estudar gastronomia, como em qualquer outra profissão e que, quando você escreve sobre o tema, precisa pesquisar e não apenas digitar uma receita.

“É preciso acrescentar algo ao leitor, entender por que algo funciona ou não, e para isso, só estudando’.

Em seu site, Bete também dá várias dicas de viagens, normalmente ligadas à gastronomia, que ela acredita ser um dos grandes motivos para a pessoa viajar. Assim como é o caso do vinho, em que as pessoas viajam para poder degustar.

“Hoje, gastronomia é um atrativo, é um motivo para se viajar”.

O universo do vinho

Bete é apaixonada por esse mundo. Em nossa conversa, a jornalista falou muito sobre “descomplicar o vinho”. Segundo ela, existem pessoas que vão degustar, curtir, querer sentir o aroma, analisar, mas acredita que o vinho tem que ser uma bebida que a pessoa tome como ela quiser.

“Não acho legal quando as pessoas falam que a pessoa gosta ou não gosta de determinado vinho porque ela não entende nada sobre a bebida. Cada um tem que tomar o que gosta e mais, da forma que gosta. É claro que, se estiver em uma taça de cristal, na temperatura ideal, é possível ter uma percepção dessa bebida muito melhor, mas é melhor para o meu gosto”.

Além disso, Bete também conta que ainda há pessoas que dizem que não tomam vinho branco. Ela acredita que isso é uma herança da época em que os donos das vinícolas diziam que quem entendia de vinho, tomava somente o tinto. Assim acontece também como a espumante moscatel, o que é uma bobagem.

“Eu acho que o que tinha que quebrar é essa glamourização e a sofisticação que se fez com a bebida. Acredito ser a grande batalha de hoje. E também acho que quem deixou um pouco chato isso foram os “enochatos” mesmo”.

Para a jornalista, tem a hora para se estar em uma degustação, aonde se olha a cor, o aroma do vinho e a hora em que se está com a família e amigos e, analisar um vinho em um momento desses é pedante e prepotente. As pessoas passaram a achar que é um status entender de vinho e por isso, muita gente decora as características da bebida. “Status é tu gostar de vinho e não entender”, afirma.

Bete cita como exemplo o Wine Garden, localizado no Vale dos Vinhedos, em Bento Gonçalves. Lá, é um lugar em que você pega o espumante ou o vinho e senta no meio da grama para curtir.

“Sabe, é isso. O vinho tem que ser visto como a cerveja, como a cachaça. Ou você gosta ou você não gosta. E você vai tomar a bebida que você quiser e que puder. Se eu não posso pagar por um vinho de mil reais, eu não vou tomar um vinho de mil reais, e nem por isso eu sou menos tomadora de vinho”.

A degustação às cegas, segundo Bete, é a maior prova que se tem de entendidos ou não entendidos. Pois, muitas vezes as pessoas tomam um vinho brasileiro às cegas, e acham o máximo e são os que elas mais valorizam. E, essas pessoas são as mesmas que dizem não tomar vinho brasileiro por não ser bom. Ou, às vezes, tomam um vinho que dizem ser maravilhoso, talvez por ser importado, pelo preço ou pela marca, e quando vão às cegas, acham horroroso.

Para concluir, Bete enfatiza:

“Se a pessoa gosta daquele vinho, deixa a pessoa tomar o vinho que ela quer. Não tem como você dizer para as pessoas o que elas devem ou não devem fazer com a bebida. Cada um tem que tomar que gosta e o que pode tomar”.

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